Ser puro é ser insípido. Mesmo a água potável não é pura. Contém sais e minerais importantes para o funcionamento dos organismos. Nesse sentido, a pureza da água destilada pode impedir contaminação, mas também impede a ingestão de elementos essenciais. Por esse motivo, sou contra purismos. Não acredito em ser uma coisa só. Não acredito também em neutralidade – "nem de direita, nem de esquerda", "nem homem, nem mulher". Nem acredito no Yin-Yang, por ser muito preto no branco – embora seja o conceito mais próximo da realidade das coisas como vejo: dual e una, ao mesmo tempo. Na verdade, vejo unidade, dualidade e multiplicidade. Existe o frio e o calor (pares). Existe a luz branca (unidade), que se decompõe em sete (multiplicidade). Existem infinitas combinações de elementos contrários e diversos. E essas combinações podem sem boas ou ruins. Mas o purismo é sempre ruim, porque leva embora o que é bom.
Pensei nisso porque comecei a refletir sobre posicionamentos políticos e como não me encaixo em nenhum. Não componho nenhuma bolha. Não me assento em nenhum fundamentalismo. Isso porque todo grupo, em nome da sobrevivência, para manter a coesão, faz vista grossa para seus erros, abandona a reflexão – do latim, re- e flectere: curvar, dobrar, voltar atrás. Parafraseando o ditado, árvore que não enverga, quebra. Eu até tento ouvir diferentes opiniões, ver por diferentes pontos de vista, como encoraja Hegel, pois entendo, como ele, que a verdade se espalha por diferentes lugares, mesmo aqueles mais estranhos e desagradáveis. Mas aliar-se, filiar-se, congregar-se a esses lugares é outra história, justamente por conta do purismo incutido nos grupos e movimentos – é sempre um nós versus eles (não é essa a tragédia de Romeu e Julieta?). Além disso, é repugnante ter que ouvir mentiras quando o que mais se quer é a verdade. É como viver a atualização da história bíblica edênica em que a serpente conta uma mentira encoberta pela verdade. Não quero lascas da verdade. Quero-a toda, da casca ao cerne.
É então que lembro o que havia esquecido: se reconheço a verdade, deve ser porque ela está dentro de mim. Não preciso ler a Bíblia, estudar os filósofos, muito menos acompanhar youtubers e podcasters. Não preciso me submeter ao asco que é ouvir fundamentalistas. Não preciso de uma ideologia para viver, nem de religião, pois ela é como a água destilada da verdade, muito parecida mas sem substância, e, mesmo na melhor das hipóteses, não oferece tudo o que o espírito necessita. O que preciso é investigar, como sempre fiz, minha psique. Pensar nos diferentes elementos e nas diferentes combinações, discernir as boas das más, e cultivar o que tenho de melhor: amor.
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