É muito difícil estudar e trabalhar nesse país. Digo "nesse país", porque não sei como é em outros - nunca saí do Brasil -, então só posso falar sobre como é aqui e como é na universidade que frequento.
Lá, a carga horária e a grade curricular, que são extensas demais, não coadunam com a jornada de trabalho. Para seus gestores, o que importa é o tempo que passamos em aula - sem contar as horas complementares. Acaba que temos que escolher entre sair mais cedo das aulas ou chegar atrasado no serviço, e vice-versa (sair mais cedo do serviço ou chegar atrasado às aulas). Aliás, quem dera fosse uma escolha. Alguns professores e empregadores são inflexíveis. E desconfiados. Tem os que pedem declaração da empresa ou da universidade.
Quando saiu que a CAPES liberou o acúmulo de bolsas e atividades remuneradas, muita gente da comunidade acadêmica comemorou. Mas não sei por quê. Aliás, sei. Quem tem bolsa de estudo, mas precisa trabalhar pra completar a renda devia estar sempre ansiosa com medo da CAPES descobrir e cortar a bolsa. Sem contar que o trabalho não poderia ser com carteira; e se existia alguma esperança de se aposentar, o que ficou foi o verso de Dante - "vós que entrais, abandonai toda a esperança".
Mas a questão é justamente a necessidade de trabalhar, quando a bolsa de estudos deveria servir exatamente para fomentar a dedicação aos estudos, que é pesquisa, produção de conhecimento para a melhoria da vida das pessoas. Com essa medida, a CAPES apenas se isenta de aumentar o valor das bolsas. O Camilo reajustou as bolsas, que não eram reajustadas desde o fatídico ano de 2013. Embora as bolsas de mestrado e de doutorado sempre terem sido - pelo menos nos últimos vinte anos - maiores que o salário mínimo, elas têm perdido em proporção. Por sua vez, a bolsa de iniciação científica, mesmo com o atual reajuste, não chega à metade do salário mínimo.
É verdade que o valor da bolsa de iniciação científica agora se equipara ao que o mercado oferece em estágios, mas a questão é a necessidade de completar - e aqui dou ênfase - a renda. A universidade não pode ser uma instituição de elite exclusiva para as elites econômicas, mas é o que ela tende a ser quando não se move para garantir seus serviços a pessoas pobres. Se é obrigatório o cumprimento da carga horária, todo aluno pobre deveria ganhar dinheiro só por assistir às aulas. Não é aceitável que se tenha que escolher entre estudar e comer, entre trabalhar e se divertir - sim, pois quem disse que a vida é só trabalho?
Guimarães Rosa, em seu discurso de entrada à ABL, disse que "a gente morre é pra dizer que viveu", e recentemente um grande pensador morreu pra dizer que viveu. Domenico de Masi, entre outras coisas, cunhou a expressão "ócio criativo". Para o sociólogo, o ócio é necessário à produção de ideias e as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade. Ele é - continuo a usar o presente - contrário ao trabalho tradicional e defensor do tempo livre. "É nas horas de ócio que alguém pode tornar-se mais culto". Que suas palavras ecoem novamente e encontrem alguma mudança em um futuro próximo.
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