Todo dia, desde muito tempo, logo de manhã cedo, um homem (preciso perguntar o nome dele) passa em frente a minha casa vendendo cuscuz e tapioca. Seu anúncio -- "olha o paulista, olha a tapioca!". Queria poder transmitir aqui a entoação, a prosódia com o esse sibilante, à maneira dos paulistas (será um imigrante em terras alencarinas? seria irônico). Esse anúncio, que é canto, me transporta para a infância, quando esse mesmo homem passava pela minha rua, a mesma rua, embora não seja a mesma. Moro no mesmo endereço, mas não no mesmo lugar. Dentro e fora da minha casa, dentro e fora de mim, tudo mudou. Só para citar um exemplo: ali do outro lado, havia algumas árvores, uma delas bem grande e frondosa. Ela me contava as estações. Se era chuvosa, era verde viva. Se era seca, era laranja lustrosa. Derrubaram. Para quê? Na época, para fazer um estacionamento. Hoje, é um terreno baldio com um anúncio de venda.
Tenho estado nostálgico, por vários motivos. E não ajuda acordar todos os dias ao som de uma melodia infante. O homem do cuscuz e da tapioca é o culpado por esse texto e por meu desejo de que algumas coisas e pessoas tivessem a mesma permanência na realidade que têm na memória. Coisas e pessoas que existiam no passado, junto daqueles "olha o paulista, olha a tapioca!" Coisas e pessoas que hoje não estão nem podem estar com estes "olha o paulista, olha a tapioca!" Esse canto me traz a lembrança do que perdi, e agora temo perder isso também. E se o homem da tapioca muda de rota, some, morre?
Tanta coisa diferente, outras tantas iguais. Essa dicotomia antitética e paradoxal vem dos pré-socráticos e chega aos estruturalistas. A mudança é a única constante, diz Heráclito. A ausência é uma presença, diz Barthes. Mas nenhum me diz o que é melhor. Pior: nenhum me traz a vida que conhecia nem me leva de volta ao que era. Nem podem. Gil canta que "o que foi já era" e fala do "eterno é", como que exortando a olhar para o presente ("o melhor lugar do mundo é aqui e agora") ao mesmo tempo que para a eternidade ("os cabelos da eternidade são mais longos que os tempos de agora são mais longos que os tempos de outrora").
Queria acreditar nesses gênios. É verdade, o aqui e o agora está melhor em muitos aspectos, dentro e fora de mim, dentro e fora de casa -- agora tem um supermercado aqui perto. Mas também está pior em muitos outros -- e mais fundamentais. Mal acordado, ouvindo o homem do cuscuz e pensando em toda a filosofia que conheço, não acho respostas. Então, pergunto à namorada: "xuxu, o que você acha de mudanças?" "Esse tipo de indagação logo de manhã?", ela deve pensar, mas me responde, sabiamente, bem direta, como é a verdade: "depende".
Ao ouvi-la, lembro que Aristóteles já formulara a ética do "cada caso é um caso". Mas ao vê-la lembro da ética do amor, de que já falei em alguns textos aqui. É bom tudo (inclusive a mudança) que leva em consideração o universo em conjunto ("O eu e o outro"). É bom tudo aquilo que é necessário segundo o amor presente nos seres e na matéria inorgânica ("A necessidade e a suficiência do amor"). E é por essa lente que vejo com ódio e tristeza a depleção dos recursos humanos e naturais sob a égide do progresso econômico, que no fim das contas é só futilidades. É com ódio e tristeza que vejo arrancarem duas árvores de frente de onde eu trabalho para abrir espaço para a fiação elétrica ou para liberar a vista de um outdoor. É com ódio e tristeza que vejo destruírem montanhas e rios ou afundarem uma cidade, só para apanhar os minérios.
Sim, mudança é bom. Mas depende.
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