É muito bom se sentir realizado com o que a gente faz. Ia dizer 'profissionalmente'. Mas não acredito na dicotomia vida profissional x vida pessoal. Naturalmente, existe o limite entre o trabalho e o descanso; entre a faina e o lazer; entre a ocupação e o ócio. Não é sobre isso que falo. Falo que viver, construir uma vida, é o mesmo que 'ganhar a vida', como acreditava van Gogh – e a cisão entre essas duas realidades, que, na verdade, são uma só, foi a ruína dele. Acredito que construir uma vida é ganhar a vida, e vice-versa. Make a life by making a living and making a living by making a life. Não tenho certeza se isso é factível. Mas só porque não tenho certeza de nada. Os mais orientados pelo pragmatismo hão de discordar e chamar-nos nós, do outro lado, de loucos, sonhadores, e o que valha. Mas aqueles são apenas pessoas que morreram por dentro e deixaram de ser pessoa para ser máquina. Ou pior: apenas engrenagem. Não. Não sou revolucionário. Não sou sonhador. Sou humano. Travessia. Vou e volto. Da matéria para o espírito e de volta para a matéria. Eu quero a substância, não a forma. Quer dizer. Melhor a mesma substância em diferentes formas que a mesma forma para diferentes substâncias. Eu sou diferente do outro apenas em forma, não em substância, e, por isso, o que eu faço e sou é e faz o outro. Se sou sonhador é porque sonho o sonho de todo o mundo e, então, todo mundo é sonhador. Se todos são sonhadores, então ninguém é sonhador. Todos são. Ponto. Embora nem sempre permitidos ser. E eu quero ser. Quis ser o todo da forma que me coube. Quis ser o todo a partir de minha individualidade – personalidade – forma única. E acredito que acertei o pulo. Acertei o pulo quando decidi: vou ser professor. Acertei o pulo quando descobri: sou professor. Acertei o pulo porque a decisão de ser veio do ser já em potência, germinal. Se demorou para nascer, não é culpa da semente, mas do terreno – hostil, sem nutrientes, sem música, sem carinho, sem amor, sem cuidado. Graças a Deus – seja lá o que Isso seja -- o gérmen persistiu e encontrou lugar para germinar. Valeu a paciência – do latim: sofrimento. Só tenho pena de não ter tido parceria na resiliência. É como diz Chalámov em Contos de Kolimá:
"A tristeza que se pode dividir com amigos não é tão aguda nem profunda. Na verdadeira carência, só se reconhece a fortaleza do próprio espírito e do próprio corpo, determinam-se os limites das próprias possibilidades, da resistência física e da força moral" (p. 82).
Conheci esse limite. E reconheci que é impossível sozinho. Ainda bem que não permaneci sozinho por muito tempo. Talvez não tivesse suportado. Hoje sou grato por ter sobrevivido, embora ainda restem feridas abertas e mal curadas, que se abrem sempre que lembram, sempre que descobrem que a pessoa que dizia me amar e de quem esperava e pedia, em vão, o mínimo, hoje dá esse mínimo a um semi-desconhecido que não o pede. E se não pede é porque não necessita – recebe de graça. Talvez seja o pedido. Talvez seja a necessidade. Mas a compreendo. Ela não tinha o que pedia e necessitava. Por que iria ela ofertar a outro. E ela não podia receber de quem estava, quando não caído, cambaleante. Como eu poderia ir buscar o que ela precisava? E, ainda assim, não desisti. Caminhava, do modo que fosse, centímetro por centímetro. Por mim, por nós, por tudo, por todos. Mas foi insuficiente tudo que tentei, tudo que dei. Hoje, continuo. Por mim, por tudo, por todos. Até que alguém queira vir ser um nós.
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