Após dois anos de reclusão, enclausuramento e ensino à distância (falar em EaD me dá uma ânsia), as aulas presenciais retornam na quarta-feira próxima. Desprecatado e desanuviado, ou assaz preocupado com outras coisas, esqueci-me de solicitar a carteirinha de estudante a tempo do retorno. Ainda bem que existe o Bicicletar (obrigado, Roberto Cláudio), haja vista o preço da passagem do ônibus (pô, Camilo, abaixa o preço da passagem — já escutastes Xamã?) Vai ser bom ir para a faculdade de bike e deixar o sedentarismo do lockdown. Oportunidade de exercitar corpo e mente, como queria Platão. Os médicos dizem que exercícios aeróbicos fortalecem o coração. Mas de que adianta, se os poetas vêm e o quebram ou o fazem palpitar? Há coração que aguente Sufocante, do Tim Maia? O resultado do eletrocardiograma sai amanhã. O do raio-x de tórax P.A. e perfil, também. “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Bandeira, eu te lia no ônibus no caminho de casa para a faculdade, da faculdade para casa. Tua lombada toda suja é a marca de um espírito teu irmão. Mas não sei dançar tango. Nem reggae, nem samba, nem pagode, nem funk, nem forró. Não vou mais de ônibus, vou de bike. Atenção não mais nos versos ou nas faixas de música, mas na ciclofaixa, ciclovia, ciclovida e no medo de ser esmagado por um ônibus — e já sou esmagado pelo pensamento de ser esmagado. A venlafaxina faz seu serviço. Mas não há droga que expulse os pensamentos. Clonazepam só para dormir. Os sonhos, no entanto, ainda são intranquilos.
É preciso subverter a realidade. Encontrar outra forma de ser e de pensar. Nessa ordem, pois o ser vem antes do pensar, segundo Schelling (Sämmtliche Werke, II/3, p. 164). Não sei o que devo ser nem como devo ser. Sei que quero e toda minha vida tentei ser Amor. Sempre procurei pelo Amor. Cheesy, I know. Mas é isso. Riobaldo só foi Riobaldo porque Diadorim era Diadorim. Esse foi o pacto.
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