Pular para o conteúdo principal

is it better to speak or to die, asked the knight


A ansiedade roubou meu dia hoje. E está para roubar a noite. Portanto, escrevo. As palavras dão forma ao pensamento amorfo, como ensinou o mestre Saussure. São as palavras, então, um — o último? — refúgio para a mente conturbada. Queria saber escrever poesia, como outrora. Ou pintar. Pintura também se revela ótima válvula por onde se dissipa a fumaça — daí a expressão inglesa blow off some steam? —, a nuvem que se forma sobre a cabeça do ansioso e depressivo.

Clarice, na pessoa de G. H., já havia nos iluminado com essa ideia: procurar ordem fora, quando há desordem dentro. A G. H., dona de casa, patroa, buscava a ordem do lar. Clarice, a das palavras. Tentava dizer, embora tal empreitada se impusesse maior que ela, como admitia. G. H. havia de pôr em palavras, em narrativa, seu fluxo de consciência e entregá-las a quem quer que fosse. Só assim haveria possibilidade de estar bem. Mas o que tenho cá dentro — quer expressão mais portuguesa que essa? O que trago dentro de mim, ainda que aqui transponha jeitosamente, não há de se calar nunca, porque permanece incomunicável. O que tenho a dizer é incomunicável. Acabaria com tudo. Então, calo-me. Calejo-me.

Quem cala consente?

Ah, pudesse ouvir do outro o que tenho para dizer, estaria salvo. Está aí a razão por que leio, ouço e escuto. Procuro em cada livro, em toda música, em qualquer palavra amiga o segredo que trago em mim. Diga-me primeiro, para que eu não tenha que dizer, por que dizer é rasgar-me. Sem possibilidade de remendo. Quero ouvir algo além dos ecos da minha cabeça vazia, ocupada senão por um único pensamento: pertencer.

Eu comecei falando da minha ansiedade, essa condição cada vez mais prevalente e incidente numa sociedade cada vez mais nociva, em que cada passo em falso periga deslizar no penhasco. É verdade que o perigo certas feitas é superestimado. É a ação do trauma. Qualquer evento fora da curva, do esperado, é motivo de pânico.

Eu comecei falando da minha ansiedade. Coisas banais, da vida comum, afligiram-me hoje. Mas o que me pega mesmo é um único medo: não pertencer. Meu coração já se entregou tantas vezes à esperança, “a leve esperança” (Manuel Bandeira), e todas as vezes encontrou apenas desilusão, que não aguenta outro rasgo. A ferida, única, um único corte, que, não obstante, sangra sempre, apenas com intervalos de intensidade. Outro golpe, ele se desfaz. E o que tomaria seu lugar? O cinismo, como nos alertou Cartola.

Solidão como rejeição faz o coração sangrar. A criancinha, sem querer comer, pois tem as gengivas inflamadas e o estômago a doer, não obstante, tem fome. A vida é um malabarismo entre dores? “Is better to speak or to die?” To speak is to die fast. Not to speak is to die slowly. “I’ll be damned if I do, I’ll be damned if I don’t. It’s a shot in the dark, aimed right at my throat”.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

slip inside the eye of your mind

There is no one that is going to look at what I've done and say "good job". I still believe that what we do is for the sake of others, but it includes the other inside our selves also. Actually, more than sometimes, it is the only "other" left. For it is as it goes in the ancient egyptian text, Conversation of a man with his soul : "Whom can I talk to today? Brothers are evil and friends of today don't love each other. Whom can I talk to today? Kindness has vanished and rudeness has descended upon everyone. Hearts are greedy and every man is stealing things from his fellow. Whom can I talk to today? One is contented with evil and goodness is cast on the ground everywhere. Whom can I talk to today? there is no man's heart on which one may rely. None are righteousand the land is left to evildoers. I'm laden with misery for lack of an intimate friend". Then, the man finally comes to an understanding with himself: "What my soul said to me:...

a quem dar ouvidos?

Não sei por que ainda dou ouvidos a certas pessoas e suas ideias. Eu tento ouvir diferentes vozes, ver por diferentes pontos de vista, uma vez que, como diria Hegel, pode-se encontrar a verdade em lugares inesperados. Além disso, há sempre a possibilidade de estarmos errados em nossas opiniões por não levar em conta alguma informação ou ideia que nos escapa, e é proveitoso colocar as próprias ideias à prova, confrontando-as com outras. Desse confronto, saímos com nossas ideias reforçadas ou com novas. Enfim, debates sempre são profícuos. Mas estou ficando cansando de dar ouvidos a pessoas que não são honestas, que recorrem à retórica, a falácias e a falsidades. Estou cansado de ter que extrair a verdade de uma falsidade e de descobrir uma falsidade dentro da verdade. O pior mentiroso é o que começa dizendo a verdade mas não a diz toda – como a serpente no Éden –, e com esse nenhum debate é propício. 

insegurança, ciúmes e posse

  Claro! Porque insegurança é só outra palavra para ciúmes, não é? (Pergunta retórica com altas doses de ironia).  A insegurança não nasce da quantidade de pretendentes atrás da sua pessoa. Também não tem de ver com falta de autoconfiança. Até porque você pode ser uma Shakira da vida (alguém tem dúvidas da beleza e do talento dessa mulher?) e ainda assim ser traída e/ou trocada.  Não quero dizer que sentir-se inseguro é completamente culpa do outro. Todos têm suas questões pessoais. Mas grande parte do nosso sentimento de segurança depende da pessoa com quem estamos. Como podemos confiar no outro ou em nós mesmos quando somos invalidados? Mesmo que não haja ninguém "dando em cima" da pessoa, a desconfiança vem e nos perguntamos "será que ela me ama e quer estar comigo?".  Se tivéssemos essa certeza, não temeríamos nada. Creio até que deixaríamos de ter tanto sentimento de posse, o único que parece dispersar o medo da perda. A "síndrome de exclusividade" nã...