A administração superior da Universidade Federal do Ceará (UFC) alega que o regresso à rotina presencial aconteceu com sucesso. Bem longe da verdade. Conversa pra boi dormir. “Sucesso” não é a palavra que define o retorno, mas “desorganização”. A falta de compromisso da reitoria, na pessoa do reitor-interventor, com o retorno pacífico e regular é patente. Falta de comida nos Restaurantes Universitários (RUs) e a falta de clareza na logística dos casos especiais (daqueles professores, alunos e servidores que, por motivos de saúde, precisam ficar em casa) são apenas exemplos desse desarranjo no regresso à sala de aula.
Os RUs são uma conquista estudantil, na medida que promovem a permanência do aluno na universidade, principalmente daqueles mais desfavorecidos economicamente, visto que a jornada estudantil é dupla, extenuante e complexa. A possibilidade de ter uma alimentação saudável, acessível, supervisionada por nutricionistas é um grande avanço e um importante elemento do desenvolvimento intelectual e econômico da comunidade acadêmica.
Um outro problema é o desalinho na grade de horários. Alguns professores darão aulas no formato presencial, outros na forma híbrida, e outros na modalidade remota. O que o aluno deve fazer, se no primeiro horário a aula é na universidade e, no segundo, em casa? Ainda não inventaram o teletransporte. Certo que existe a internet, mas nem isso foi pensado pela administração “superior” da universidade. E ainda que se disponibilizasse internet para os alunos, eles usariam o quê? O celular? Porque, quem é que teria coragem de andar, numa cidade como a nossa, com notebook ou tablet na bolsa? E quem nem celular tem?
Como se esse problemas não bastassem, há um ainda pior, que é a falta de comunicação e harmonia entre reitoria, docentes e discentes. O reitor-interventor, com motivações politiqueiras, bateu o pé e disse: as aulas em sala retornam dia 16 de março. Sem mais. Do outro lado, os docentes, também com motivações politiqueiras, impõem dificuldades e não buscam, juntamente com os alunos, soluções para a problemática referente à dinâmica das aulas. Tudo isso causa um grande mal-estar, principalmente em nós, estudantes.
É bem verdade que o retorno à sala de aula era e é um anseio de professores e alunos. Dois anos de reclusão, isolamento e luto fizeram um estrago na saúde mental e física de todos. Tudo o que se quer e se pede é o compromisso das partes responsáveis com um retorno pacífico, harmônico, regular. Mas o que se verifica é falta de respeito com nossa dignidade e descuido com nosso bem-estar. A reitoria e o corpo docente da UFC precisam se entender pelo menos no que concerne a isso. "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele", indicou Hannah Arendt. E, ainda, quase num apelo: "a educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos".
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