Hoje acordei feliz, embora tenha dormido pouco. Mas logo a constatação de que estava só recaiu sobre mim. Será mesmo impossível ser feliz sozinho? "They say that the world was built for two". Para mim, isso sempre foi verdade. Explica até mesmo por que, na masturbação, depois do ápice do gozo, vem logo um sentimento de frustração. Ou é assim só comigo? "Only worth living if somebody is loving you". O gozo só é recompensado se é dado, recebido.
Nessa vida nenhum ser é autossuficiente, contido em si. Fosse, não existiria linguagem: comunicação, troca de conteúdos mentais individuais em um código comum a pelo menos duas pessoas. Schelling já disse: "[language] is a true creation of the full inside when it can no longer remain in itself" (Weltalter I, p. 56–7). I can't no longer remain in myself… E então eu saio à procura de não sei o quê, não sei quem. Parece que estou sempre à procura de alguém. "Isn't anyone trying to find me? Won't somebody come take me home?"
Não há ninguém. Todos estão ocupados e preocupados consigo mesmos. A gente não pode mais esperar ter importância na vida do outro nem querer atenção, carinho e cuidado de quem diz nos amar e quem a gente ama. O amor tornou-se apenas uma conveniência. “O amor é um objeto de especulação para o egoísta, um instinto sensual para o comum dos homens”, já disse Gonçalves de Magalhães em Amância. Se o indivíduo só sobrevive em comunidade, não importando quão atômica; se as relações são incontornáveis, que sejam as mais transitórias possíveis. Nada nem ninguém está aqui para ficar. Tudo tem um final e é preciso se preparar para eles.
Mas tudo tem um começo também. O que importa é estar aberto para eles. "Se o amor chamar, eu vou". Em vez de aprender a ser só, aprender a só ser, como na canção do Gil, até um dia quem sabe se encontra alguém que goste de ficar e vá ficando sem contar os dias. Não há ponteiros no relógio. Um ano pode parecer dez e ao mesmo tempo ontem. Não há ponteiros no relógio: conhecemo-nos desde sempre.
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